terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CONFIE EM SUAS CRIAÇÕES!

 Criar filhos (ou qualquer outra coisa...) nunca é fácil, saber disso me traz a certeza de que a paternidade não me cabe, seria uma espécie de “bullying” genético com a pobre criança, portanto decidi que em relação ao tema é melhor ser do que ter, o que já tem sido complexo o suficiente.  Minha relação com meu clã nunca foi das mais fáceis, em torno de nossa mesa de jantar sempre existiu um sutil e permanente estado de tensão, raras vezes gritamos ou brigamos, mas nem rir alto podia, minha mãe nunca gostou desse “exagero”,  passei muitos jantares em conversas frias e automáticas, dando resposta lacônicas, por vezes monossilábicas, também evitava ficar por muito tempo no mesmo cômodo da casa que meu pai, muito tempo se encarando em silêncio poderia gerar um perigoso acumulo de perguntas sem resposta, vivíamos imersos numa espécie de regra subliminar  do tipo “Don't Ask, Don't Tell”...

 Nossa casa era decrépita, construída provavelmente na década de 1940 e retalhada ao longo dos anos em inúmeras reformas desastrosas, as paredes e as telhas da cobertura se esfarelavam, não raro caiam pequenos pedaços delas em nossas cabeças, me lembro muito bem de quando a sala de estar (que já foi o local de trabalho de meu pai...) se enchia de água em períodos de fortes chuvas, eu me minhas irmãs usávamos frascos de álcool Coopersucar, que tinham as pontas cortadas, para tirar água acumulada, assim enchíamos enormes baldes que minha mãe levava até a calçada e os esvaziava na sarjeta, essa drenagem medieval acontecia com frequência, pois morávamos no sopé de um morro e (como se não bastasse) a rua quando asfaltada ficou em um nível bem mais alto que a casa, esta por sua vez ficando  tecnicamente enterrada no lote, e a sala era o espaço em nível mais baixo. Aquilo tudo pra mim era o fundo do poço, literalmente, um buraco cheio de água, só que com todos nós dentro.

 Nossa desacertada casa era tanto morada quanto local de ofício, meus pais autônomos sempre trabalharam nela, ele protético (ou TPD – Técnico de próteses dentárias...) e minha mãe uma costureira sazonal, ambos com ares de professor pardal resolviam muitos de nossas necessidades cotidianas com suas habilidades manuais, infindáveis eram os consertos, ajustes e remendos, alguns bem sucedidos outros nem tanto, por exemplo, um ventilador, que não por acaso uma prima apelidou de Frankenstein, ele foi montado pelo meu pai com partes de outros três ventiladores quebrados, que contava também com o apoio de tiras de borracha, um cadarço cor de rosa, massa epóxi e alguns arames, às vezes ele trepidava tanto que parecia ter vida própria, mas bastava escora-lo em algum móvel e reforçar a amarração do cadarço que ficava tudo certo, podíamos então contar com o velho guerreiro naquelas longas noites, tomadas por mosquitos e pelo úmido calor cuiabano.

 Foi assim que cresci, na tensão de driblar os conflitos e focar na sobrevivência, onde a criatividade surgia quase que obrigatoriamente e não por sugestão do terapeuta. Desta maneira muitos anos de nossas vidas passaram em suspenso, como os móveis que erguíamos para proteger da água acumulada quando chovia, por vezes não só erguíamos tudo que parecia ser de valor, mas encaixotávamos, encobríamos e tampávamos, esperando que um dia (o dia perfeito na mítica casa nova...) o mau tempo ficasse só do lado de fora, e quando isso acontecesse tudo seria aberto, devidamente gozado, vivido, as palavras seriam ditas, as respostas seriam dadas, então toda família faria o que desse prazer, o prazer de ser quem realmente se é.
 Infelizmente esse dia ainda não chegou pra todos do clã K&C, mas posso garantir que chegou pra mim, agora nenhuma chuva vai me parar, já sobrevivi por muito tempo, eu quero viver e criar, vivendo à custa de minhas criações (um antigo sonho), como a autonomia está no meu sangue não posso mais me esconder atrás da carteira de trabalho, essa é a hora de oferecer pro mundo minhas artes, as artes com o DNA Kojo & Custodio ou simplesmente  ARTESKC.


 Logo abaixo seguem as imagens de minha primeira criação, uma blusa feminina de modelagem fluída, pensada para dar muita liberdade de movimento, para se ajustar as mais diversas silhuetas, feita com tecido de toque macio e discreto brilho acetinado, detalhes de acabamento feitos em costuras manuais, com muito cuidado e carinho de ponto a ponto, estampada com motivos florais, desenhados e pintados á mão de forma a lembrar da liquidez de uma aquarela, esta é a pioneira de uma série de aproximadamente trinta peças únicas, que serão mostradas em breve! Mais que pedaços de tecido, linhas e tintas essas peças são a prova de que nunca se deve esquecer o valor de nossa criação, entendendo a palavra "criação" em seu sentido mais amplo e profundo.

VISTA FRONTAL

DETALHE DA GOLA

DETALHE NA LATERAL POSTERIOR

VISTA POSTERIOR (COSTAS)


DETALHES DE ACABAMENTO E ESTAMPA FRONTAL


 DETALHE DE ACABAMENTO EM COSTURA MANUAL

DETALHE DE PINTURA (COSTAS)

2 comentários:

  1. Que graça! Está vendendo? Como faz para comprar? Bjus!

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    1. Ainda estou produzindo as peças, mais a diante colocarei à venda, eu mostrei esta na postagem pra ver a aceitação da galera com a idéia!

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